Amazonas – A tramitação da Ação Penal 993 no Superior Tribunal de Justiça (STJ) — recentemente redistribuída para a ministra Nancy Andrighi, em junho de 2026 — mantém sob escrutínio judicial um dos capítulos mais críticos da gestão da pandemia no Amazonas. O processo, que tem como réu o ex-governador e atual candidato ao Senado, Wilson Lima (União Brasil), contrasta diretamente com a recente estratégia do político de classificar o episódio como “a maior fake news do estado”.
O embate narrativo ganhou força nesta semana. Em vídeo veiculado em suas redes, Lima tentou descredibilizar as acusações utilizando um argumento técnico: a fornecedora dos equipamentos, a empresa FJAP (conhecida pelo nome fantasia “Vineria Adega”), possuía em seu CNPJ a autorização legal para importar e comercializar itens médico-hospitalares. Com isso, o ex-governador afirma que rotular o caso como “compra em loja de vinhos” seria uma inverdade criada para atacá-lo, justificando a aquisição pela urgência de salvar vidas no auge da crise sanitária.
A tentativa de focar o debate na fachada do estabelecimento, no entanto, foi rapidamente rebatida. O ex-deputado federal Marcelo Ramos utilizou o episódio para lembrar que o letreiro da loja não é o objeto da investigação. Segundo Ramos, a argumentação de Lima funciona como uma “cortina de fumaça” para esconder as cinco graves tipificações penais aceitas por unanimidade pela Corte Especial do STJ em 2021: organização criminosa, peculato, fraude e dispensa irregular de licitação, além de embaraço às investigações.
O que dizem os autos
Longe de debater o portfólio de vendas da empresa, o Ministério Público Federal (MPF) documentou um esquema de triangulação comercial que gerou enorme prejuízo aos cofres públicos. Segundo a denúncia, o Estado pagou R$ 2,97 milhões por 28 ventiladores pulmonares. A rota do dinheiro, porém, mostrou que uma primeira empresa (Sonoar) comprou os itens por cerca de R$ 1 milhão e os repassou à FJAP por R$ 2,4 milhões, que finalmente os vendeu ao governo com um sobrepreço que beira os R$ 2 milhões.
Para agravar o cenário, as investigações apontaram que os respiradores adquiridos a peso de ouro sequer possuíam as especificações técnicas necessárias para atender pacientes em estado grave de Covid-19 internados em UTIs.
Embora a defesa do ex-governador continue negando as irregularidades e ele possua o direito à presunção de inocência até o fim do julgamento, a materialidade das provas — sustentada por notas fiscais, rastreamento financeiro e laudos periciais — demonstra que a Justiça analisa crimes contra a administração pública, esvaziando a tese de que o escândalo seria apenas um boato de internet.