Brasil – O sinal vermelho acendeu em definitivo para as micro, pequenas e médias empresas (MPMEs) no Brasil. Um cenário de asfixia financeira tem se desenhado com clareza nos últimos meses, refletindo o encarecimento e a escassez da oferta de crédito no mercado. Os números de junho de 2026 expõem a gravidade da situação: dos R$ 85,1 bilhões em crédito empresarial classificados como problemáticos ou com atraso superior a 90 dias, impressionantes R$ 75,6 bilhões pertencem às MPMEs. Isso significa que as menores companhias já respondem por 88,9% de todo o “calote” corporativo do país.
A disparidade fica ainda mais evidente ao se analisar a saúde financeira dos diferentes portes de negócios. Enquanto as grandes corporações conseguem manter um índice de calote de apenas 0,66%, as PMEs amargam uma taxa de inadimplência de 5,71%. O dado é alarmante, especialmente se levarmos em conta que essas empresas menores representam 48% de toda a carteira de crédito destinada a pessoas jurídicas no Brasil, mas concentram quase nove em cada dez reais do volume considerado em alto risco de perda.
Grande parte desse salto na inadimplência tem um motivador regulatório direto: a Resolução CMN nº 4.966, que entrou em vigor em 2025. A nova diretriz do Banco Central mudou as regras do jogo ao obrigar as instituições financeiras a provisionarem não apenas os atrasos que já ocorreram, mas também a calcularem os riscos futuros de não pagamento. Essa exigência contábil forçou os bancos a aumentarem suas reservas de segurança e a adotarem uma lupa muito mais rigorosa e punitiva na análise de concessão, fechando a torneira para os pequenos empresários.
Para piorar o cenário, o aperto técnico das instituições financeiras encontra um ambiente macroeconômico hostil, ancorado em uma taxa Selic a 14% ao ano. As empresas de menor porte sofrem não apenas com os juros sufocantes e a baixa capacidade de oferecer garantias reais, mas também com graves lacunas de gestão financeira. Um levantamento setorial revelou que mais de 63% dos empresários pesquisados sequer sabem qual é a taxa efetiva de juros que estão pagando aos bancos. Sem margem de manobra e com o crédito restrito, a tendência apontada por especialistas é de um endurecimento ainda maior do mercado, o que deve provocar uma escalada nos pedidos de recuperação judicial nos próximos meses.