(MANAUS) – O corpo está no quarto em um momento de intimidade, mas a mente parece distante e em frente a um espelho. Em vez de se entregar às sensações, a pessoa começa a se comparar com um modelo de beleza que aprendeu como desejável e que foi reforçado nas experiências por redes sociais. Barriga, estrias, peso, cicatrizes, tudo começa a incomodar e trazer uma espécie de “desaparecimento” durante o sexo: a pessoa está fisicamente presente, mas emocionalmente ocupada pensando em como está sendo vista.
O problema pode não estar no corpo, mas na maneira como ele é percebido. É o que alerta a psicóloga e psicoterapeuta Roberta Ribeiro Pinto, da Hapvida. A discussão ganha espaço neste início de setembro, quando são celebrados o Dia Mundial da Saúde Sexual, em 4 de setembro, e o Dia do Sexo, em 6 de setembro, datas que conversam com a campanha Every Body 2026, que questiona padrões corporais tratados como “normais”. Mas a relação entre imagem corporal, autoestima e sexualidade vai muito além de uma data no calendário.
“A percepção que uma pessoa tem de si mesma interfere diretamente na maneira como ela se relaciona com o próximo, inclusive na intimidade. O como eu me vejo, influencia em como os outros irão me ver. E quebrar esse padrão de enxergar a si mesma de forma negativa faz todo o sentido quando o assunto é voltar a ter uma vida sexual saudável”, explica a psicóloga.
O problema ganha ainda outras dimensões com a exposição frequente a imagens de corpos considerados perfeitos, relações aparentemente impecáveis e performances idealizadas.
“São referências que podem se transformar em uma espécie de régua na avaliação do próprio corpo e até da própria capacidade de ser desejado. O nosso cérebro é muito visual, aprende e tem muito mais facilidade de desempenhar conforme ele enxerga”, afirma Roberta.
Ela explica que a pessoa pode começar a se preocupar menos com o prazer e mais com a própria aparência, evitar determinadas posições, manter o corpo coberto, deixar de experimentar situações novas ou até evitar relações.
“Imagine essa pessoa vendo diversas vezes no feed vídeos de sucesso, de relações, de padronizações, de corpos perfeitos, sem cicatrizes, sem manchas, aquela barriga
tanquinho. No momento íntimo, o comportamento tende a mudar e muitas vezes a falhar, e outras até mesmo evitar”, reforça.
Aparência e performance
E a pressão não termina na aparência. Para a psicóloga, a exposição a conteúdos que mostram corpos e relações idealizadas também pode criar expectativas irreais sobre o desempenho sexual.
Impacto esse que a profissional relata, segundo sua experiência clínica, ser mais percebido especialmente entre homens.
“A visualização frequente de conteúdos de desempenho sexual pode criar uma referência de como uma relação “deveria” acontecer e fazer com que a experiência real seja comparada a um padrão difícil de reproduzir. Isso porque o cérebro aprende através das imagens, então, acaba afetando o desempenho pessoal que o homem, especialmente, pode ter quando está com a sua parceira”, afirma Roberta.
A consequência pode ser uma busca por soluções imediatas para corresponder à expectativa criada. A psicóloga, contudo, alerta para o uso inadequado e constante de medicamentos para melhorar o desempenho sexual, que pode trazer impactos para além da própria relação íntima.
Mudanças naturais
Gravidez, pós-parto, menopausa, andropausa, envelhecimento e mudanças de peso são momentos inerentes à vida em que a imagem corporal também pode sofrer transformações importantes. “Para quem construiu durante anos uma referência específica do próprio corpo, olhar-se no espelho e perceber que aquela imagem mudou pode afetar também a maneira de se sentir desejável. Mas não temos como mudar isso, é o ciclo da vida”, pontua Roberta.
Nesse processo, ela ensina que ter referências positivas e espaço para falar sobre as próprias inseguranças é o que pode fazer diferença. “O autoconhecimento também passa pela capacidade de reconhecer que o corpo não é estático”, ressalta a psicóloga.
O elogio ajuda
E toda essa reconstrução da relação entre corpo e mente não precisa acontecer apenas individualmente. O parceiro ou a parceira pode ter um papel importante ao criar um ambiente de segurança, afeto e comunicação.
“Todos nós gostamos de ser elogiados, amados. A pessoa que está junto nessa relação pode não só agir com elogios, mas compartilhar momentos íntimos de bem-estar. Falar sobre o que gosta, o que incomoda, quais são as inseguranças e como cada um está se sentindo pode ajudar a tirar a intimidade do campo da performance e devolvê-la ao campo da conexão”, indica a profissional.
“Isso tem a ver com autoconhecimento e faz toda a diferença, porque a saúde sexual está conectada com a saúde mental”, completa.
Sentir-se desejável
A profissional alerta ainda que o ato de cuidar da aparência ou desejar mudanças no próprio corpo não deve ser visto como um problema. A questão está no significado atribuído a essa mudança: ela nasce de uma escolha pessoal ou da sensação de que é preciso atingir determinado padrão para ser desejado?
Para a especialista, romper com essa lógica passa pelo autoconhecimento e pela aceitação de que o corpo se transforma ao longo da vida.
“O segredo está em reconhecer as mudanças sem deixar que elas determinem o valor ou a capacidade de viver a própria sexualidade. O objetivo maior de tudo isso é estar presente, seja para si ou seja para o outro”, conclui Roberta.