Publicidade
Brasil

Escolas militares podem pagar mais a policiais do que a professores

Estudantes (Foto: Marcelo Camargo/ABr)

SรƒO PAULO (SP) – O projeto que cria escolas cรญvico-militares no estado de Sรฃo Paulo, aprovado nesta terรงa-feira (21), prevรช rendimentos de mais de R$ 6 mil para jornadas de 40 horas semanais aos professores ligados ร  Polรญcia Militar. Segundo oย texto votado pela Assembleia Legislativa do Estado de Sรฃo Paulo (Alesp), os valores aumentam em 50%, podendo chegar a mais de R$ 9 mil, para coordenadores ou oficiais. Hรก ainda a previsรฃo de pagamentos menores, caso os policiais militares trabalhem fraรงรตes dessa jornada.

Os valores sรฃo maiores do que os salรกrios recebidos por parte dos professores da rede pรบblica estadual. Na รบltima seleรงรฃo de professores temporรกrios, foram anunciados salรกrios de R$ 5,3 mil para jornadas de 40 horas semanais e R$ 3,3 mil para 25 horas. Os temporรกrios representam quase 60% do quadro total de educadores da rede estadual. Mesmo entre os professores do quadro permanente, os salรกrios de R$ 9 mil ou mais sรฃo pagos apenas a uma pequena minoria.

O projeto foi criticado pelo Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de Sรฃo Paulo (Apeoesp). โ€œVamos nos mobilizar para impedir a transformaรงรฃo de escolas regulares em escolas cรญvico-militares ou criaรงรฃo dessas escolas com recursos da educaรงรฃo; para que nรฃo sejam pagos salรกrios superiores aos de professores para militares aposentados; para que nรฃo sejam formatadas as mentes de nossas crianรงas e jovens de acordo com o pensamento รบnico do militarismoโ€, diz nota divulgada pelo sindicato apรณs a aprovaรงรฃo.

A Uniรฃo Paulista dos Estudantes Secundaristas (Upes) tambรฉm criticou o projeto, que, apรณs aprovado pelos deputados estaduais, segue para sanรงรฃo do governador Tarcรญsio de Freitas. โ€œNรณs estudantes estamos unificados com os professores para dizer nรฃo a esse projeto que visa sucatear a nossa educaรงรฃo. Defendemos a valorizaรงรฃo dos professores, uma escola de qualidade, digna e com uma boa infraestruturaโ€, diz a nota da entidade.

Para a Upes, a proposta nรฃo busca melhorar a gestรฃo das escolas, mas implementar um processo disciplinar baseado no pensamento militar.

Disciplina militar

As escolas cรญvico-militares, com โ€œgestรฃo compartilhadaโ€ entre corporaรงรตes militares e secretarias estadual ou municipais de Educaรงรฃo, poderรฃo ser implantadas a partir de unidades educacionais jรก existentes ou em novos estabelecimentos escolares.

โ€œAs primeiras seriam responsรกveis pela administraรงรฃo e disciplina, enquanto as segundas ficariam a cargo da conduรงรฃo pedagรณgica nas instituiรงรตes de ensinoโ€, diz o texto de justificativa da proposta assinado pelo secretรกrio estadual de Educaรงรฃo, Renato Feder.

O objetivo da adoรงรฃo do modelo รฉ, segundo o projeto, โ€œa elevaรงรฃo da qualidade de ensino medida pelo รndice de Desenvolvimento da Educaรงรฃo Bรกsica (Ideb)โ€. Hรก ainda a previsรฃo da โ€œinserรงรฃo de atividades cรญvicas e de cidadaniaโ€ no currรญculo e atividades extracurriculares conduzidas pela Secretaria de Seguranรงa Pรบblica.

Vulnerabilidade e violรชncia

Cada escola que aderir ao programa deverรก contar com ao menos um policial militar da reserva para implementaรงรฃo das propostas. Ao justificar o projeto, Feder argumentou que a implantaรงรฃo das escolas busca o โ€œenfrentamento da violรชnciaโ€ e a promoรงรฃo da โ€œcultura da pazโ€.

Um dos critรฉrios para implantaรงรฃo das escolas, que devem ser submetidas ร  โ€œconsulta pรบblica antes de sua criaรงรฃo, รฉ o โ€œรญndice de vulnerabilidade socialโ€.

Esse ponto รฉ contestado pela professora da Faculdade de Educaรงรฃo da Universidade de Brasรญlia (UnB)ย Catarina de Almeida Santos, que faz parte da Rede Nacional de Pesquisa Sobre Militarizaรงรฃo da Educaรงรฃo.

โ€œEssas escolas nessas รกreas mais vulnerรกveis sรฃo as escolas do pรบblico que, via de regra, a รกrea de seguranรงa mata no paรญs. Ela mata, ela encarcera. E esses policiais vรฃo para dentro da escola lidar com esses estudantes, que nรฃo vรฃo ficar nas escolas, porque o histรณrico que a gente tem de escola militarizada no Brasil รฉ que esses estudantes sรฃo expulsos da escolaโ€, criticou Catarina em entrevista ร ย TV Brasil, emissora daย Empresa Brasil de Comunicaรงรฃoย (EBC).

As รกreas de seguranรงa e de educaรงรฃo tambรฉm tรชm diretrizes conflitantes, na avaliaรงรฃo da pesquisadora.ย โ€œQuando a gente estรก falando da รกrea de seguranรงa, a questรฃo da disciplina e tendo disciplina como obediรชncia ร  ordem, a ordem hierarquicamente falando faz parte disso. Na รกrea de educaรงรฃo, nรฃo. O processo educativo se dรก no diรกlogo, se dรก na pergunta, se dรก dรบvida e se dรก nessas relaรงรตes de forma mais horizontalโ€, finalizou.

Leia mais:ย Comunidade indรญgena do AM ganha primeira escola de alvenaria
(*) Com informaรงรตes da Agรชncia Brasil
Jirau News

Ao continuar navegando, vocรช concorda com as condiรงรตes previstas na nossa Polรญtica de Privacidade. Aceitar Leia mais