Brasil – Com um contingente de 83,9 milhões de eleitoras aptas a votar no Brasil — superando os 74,8 milhões de eleitores homens —, o voto feminino consolidou-se como o grande fiel da balança nas eleições de 2026. Ciente do peso demográfico e de sua importância vital para a campanha à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o Partido dos Trabalhadores (PT) colocou a mobilização das mulheres no centro de sua estratégia, utilizando a figura da primeira-dama Janja da Silva como principal chamariz.
A ofensiva retórica e o protagonismo de Janja
Nos últimos meses, a legenda intensificou suas ações para dialogar com esse eleitorado, incluindo o lançamento de um comitê específico de mulheres. Nesse cenário, Janja assumiu um papel de destaque para tentar suprir as lacunas do próprio partido.
Durante a Convenção Nacional do PT, no início de agosto, a primeira-dama precisou ser chamada ao microfone de improviso por Lula, que reconheceu publicamente a falha da legenda em não incluir mulheres na lista de discursos do evento. Dias depois, no lançamento oficial da campanha em São Bernardo do Campo (SP), Janja discursou sobre a importância da atuação feminina nos bastidores políticos e prestou homenagem a Marisa Letícia — falecida em 2017 —, recordando que a ex-esposa do presidente foi a responsável por bordar a primeira bandeira do partido.
O ativismo da primeira-dama também tem mirado o sistema político geral. Em entrevistas recentes, ela defendeu abertamente que as vagas na Câmara dos Deputados e no Senado sejam divididas em 50% para cada gênero, criticando a insuficiência do atual modelo de cotas eleitorais.
A barreira dos números: discurso x realidade
Apesar do forte apelo voltado ao público feminino e da exigência legal de destinar ao menos 30% dos fundos de campanha e do tempo de TV a elas, a fotografia das candidaturas petistas em 2026 mostra que a paridade de gênero ainda é uma meta distante.
Dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) revelam que as mulheres continuam sendo minoria na legenda. Dos 1.097 nomes lançados pelo PT neste ciclo eleitoral, 693 são homens e 404 são mulheres. Na prática, a presença feminina segue como exceção, configurando uma proporção de aproximadamente duas candidatas para cada três homens na disputa.
Recorde proporcional em meio a um encolhimento histórico
Ainda que o desequilíbrio persista, a parcela de 36,8% de candidaturas femininas representa o maior patamar já alcançado pelo PT desde 1994, quando esse índice era de apenas 12,8%. O percentual coloca o partido ligeiramente acima do atual recorde da média nacional, que é de 34,9%.
Curiosamente, esse avanço proporcional ocorre no exato momento em que o PT registra uma forte retração no tamanho de sua chapa. O total de 1.097 postulantes em 2026 é o menor volume registrado pelo partido em mais de três décadas, representando uma queda de 32,7% em comparação ao seu auge em 2002, quando a legenda lançou 1.630 candidatos.