(MANAUS) – Toda família tem uma história que alguém insiste em contar. Às vezes ela aparece enquanto o café passa. Outras vezes, vem acompanhada de uma receita feita “do jeito antigo”, de uma reza aprendida ainda criança, de um ditado que ninguém sabe exatamente quem inventou. Há também aquelas histórias que sobrevivem apenas porque alguém se lembra delas.
Muitas dessas histórias têm nome de mulher.
São as histórias das avós.
É justamente esse universo de lembranças, afetos e saberes que o projeto O Livro das Avós: poesia, memória e ancestralidade, do Escrevendo Marias, quer colocar no papel. A iniciativa abriu uma chamada pública para mulheres que desejam escrever sobre suas avós e transformar memórias familiares em parte de uma publicação coletiva.
As inscrições são gratuitas e podem ser feitas até 3 de outubro de 2026.
A proposta é simples na essência: contar uma história que merece continuar existindo.
Pode ser uma lembrança da infância, uma receita, uma cantiga, uma reza, um conselho, um jeito de cuidar, uma história contada tantas vezes que já parece fazer parte da família. Também podem aparecer experiências relacionadas ao corpo, à saúde, à vida cotidiana, aos ditados populares ou à própria trajetória da avó.
O que parece pequeno dentro de uma casa pode ganhar outro tamanho quando colocado no papel.
O que passa de uma geração para outra
No Amazonas, essa transmissão de conhecimento ganha ainda mais camadas.
Há saberes ligados à floresta, aos rios, à comida, às plantas, às festas, à fé, ao cuidado e às formas de viver em diferentes territórios. Muito disso não está em livros. Está na fala de quem aprendeu com alguém mais velho e, um dia, passou adiante.
As avós ocupam um lugar importante nessa corrente.
O projeto parte justamente da ideia de que essas mulheres também são guardiãs de memória. Ao reunir as narrativas das netas, O Livro das Avós pretende preservar não apenas histórias de família, mas fragmentos de uma cultura que poderia desaparecer se deixasse de ser contada.
“São responsáveis por transmitir histórias, saberes e modos de viver que ajudam a formar quem somos, nossa identidade e a nossa relação com o território”, afirma Amanda Prestes, idealizadora do Escrevendo Marias.
Uma história particular que pode falar de muitas
A publicação terá textos selecionados a partir de quatro eixos: memórias familiares; corpo e saúde; ditados e histórias orais; e histórias pessoais.
Não é preciso ter uma grande história.
Talvez seja justamente o contrário.
Pode ser aquela lembrança aparentemente banal que só existe porque uma avó estava ali. Uma frase repetida durante anos. Um prato que nunca ficou igual depois que ela parou de fazê-lo. Uma história de infância. Um conselho que só ganhou sentido muitos anos depois.
Ao virar literatura, a memória de uma mulher deixa de pertencer somente à família.
Passa a fazer parte de um acervo coletivo de vozes femininas da Amazônia.
O projeto é o primeiro editorial do Escrevendo Marias, iniciativa cultural criada por Amanda Prestes em 2020 e que trabalha com literatura, poesia, artes visuais e produção cultural a partir da Amazônia e de suas diferentes formas de narrar.
“O Livro das Avós” foi contemplado pelo edital da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB), por meio do Conselho Municipal de Cultura de Manaus (Concultura).
Como participar
As inscrições são gratuitas e devem ser feitas pelo formulário disponível nos canais oficiais do Escrevendo Marias. O edital traz as regras, critérios e orientações para participação.
Em novembro, o projeto também prevê formações online sobre identidade, memória e ancestralidade, abertas às participantes e a outras mulheres interessadas em desenvolver a escrita a partir desses temas.
Porque algumas histórias começam muito antes de serem escritas.
Começam quando uma menina escuta a avó contar.
E continuam quando, anos depois, essa menina decide contar também.